A eficácia das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) no combate à insurgência e na manutenção da soberania nacional está sob escrutínio. Analistas e antigos militares apontam a interferência política e o desinvestimento crónico como os principais obstáculos à capacidade de resposta do Estado moçambicano perante as ameaças em Cabo Delgado.
Para Lázaro Mabunda, investigador do Centro de Integridade Pública (CIP), o problema reside na base da tomada de decisão. Segundo o especialista entrevistado pela MBC, o setor da defesa não goza da autonomia técnica necessária, estando refém de agendas que nem sempre coincidem com as necessidades operacionais no terreno.
“Algumas decisões estratégicas no setor da defesa sofrem interferência política, o que compromete a eficácia das operações militares”, defende Mabunda, sublinhando que esta influência externa à hierarquia militar fragiliza a cadeia de comando e a execução de táticas de combate ao terrorismo.
A visão de Mabunda é partilhada, num prisma mais estrutural, pelo capitão na reserva Abdul Machava. Para o antigo militar, a vulnerabilidade atual das FADM não é um fenómeno recente, mas sim o resultado de décadas de políticas de defesa desadequadas.
Machava sustenta que a situação vigente deriva de anos de negligência do poder político, especificamente no que toca à formação contínua dos quadros e ao apetrechamento logístico e tecnológico das forças. Sem investimento na “prata da casa”, argumenta, o país tornou-se excessivamente dependente de apoios externos, perdendo o fulgor de uma força militar que, noutros tempos, foi referência na região.
O debate surge num momento crítico, em que a sustentabilidade financeira do apoio militar ruandês é questionada. A convergência das opiniões de Mabunda e Machava desenha um cenário preocupante: sem uma reforma que liberte as FADM da tutela política direta e que priorize a modernização do exército, a segurança no norte de Moçambique continuará a depender da vontade e do financiamento de parceiros estrangeiros.
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