Moçambique consolida-se como um portal de comércio internacional e logística regional, aproveitando a sua vasta costa marítima de aproximadamente 2.700 quilómetros. No entanto, a posição estratégica do país enfrenta agora os reflexos directos das tensões geopolíticas mundiais, que colocam à prova a resiliência das nossas infraestruturas portuárias.
No programa “Mozambique: The Regional Gateway” da MBC TV, o especialista em transportes Fernando Couto trouxe uma análise profunda sobre o estado actual da cadeia logística. O cenário é de alerta, com factores externos a condicionarem o ritmo das operações nos principais portos moçambicanos.
A situação mais crítica prende-se com a retenção deliberada de embarcações. Segundo Fernando Couto, existem vários navios-tanque atracados em águas nacionais que se recusam a descarregar as mercadorias. O objectivo é aguardar que o preço dos produtos suba no mercado internacional para maximizar as margens de lucro.
Esta retenção cria um desafio logístico imediato. O especialista defende que, antes de se planear o futuro da expansão, é urgente encontrar formas de absorver e gerir estes navios que já se encontram no nosso território, garantindo que a logística interna não seja asfixiada por interesses de mercado externos.
A crise não é apenas local, mas sim um reflexo do congestionamento nas grandes rotas mundiais. Estima-se que entre 300 a 400 navios estejam actualmente retidos antes do Estreito de Ormuz. Esta concentração massiva reduz a disponibilidade de embarcações em circulação global, o que resultará, inevitavelmente, numa subida considerável do preço dos fretes marítimos.
Para Moçambique, isto significa que o custo de importação de produtos essenciais poderá subir, exigindo que o país adopte estratégias de adaptação rápidas para minimizar o impacto na economia das famílias.
Face à instabilidade nas rotas internacionais, a solução apontada passa pelo fortalecimento do que é produzido dentro de portas. Fernando Couto sublinha que Moçambique deve incentivar os agricultores a aumentarem a produção de culturas como a castanha de caju, o algodão e o feijão bóer.
O plano de resiliência moçambicano deve focar-se em dois eixos principais. Primeiro, a identificação de produtos de curto prazo para exportação imediata após o fim dos conflitos, como o gergelim. Segundo, a melhoria da logística de importação de bens estratégicos, com destaque para o arroz, para evitar roturas no abastecimento nacional.
Este cenário reforça a urgência de investimentos contínuos em infraestruturas portuárias, garantindo que Moçambique não seja apenas um espectador das crises globais, mas um actor preparado para proteger a sua economia.
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