“Juro que para morreres basta dizeres o que pensas (…) matam-te de noite, mas quando te matam de dia é para pagares o preço da tua rebeldia…” in Sétimo Dia, Azagaia. 2017.
“(…) ouvi rajadas de tiros. Foram vários tiros (…) pelo que consegui ver, eram homens que estavam fardados com pingos de chuva. Traziam gorros, mas com furos só nos olhos. É o que consegui ver. Eram dois homens com pistola”, disse o jornalista Carlitos Cadangue, após escapar a uma tentativa de assassinato, na noite de quarta-feira.
Se não forem desproporcionais, os pingos de chuva podem ou não ser benéficos, por dentro ou por fora das figuras estilísticas. A situação recente de cheias e inundações no Sul e Centro de Moçambique pode legitimar a literalidade da afirmação. O ataque, ontem, ao jornalista Carlitos Cadangue, da STV, carrega os outros sentidos. Em ambos os casos, só desgraça, embora para o segundo, os que fizeram chover pingos das armas não lograram pingos de sangue, mas já o fizeram. Vamos nos ater a isto: “pingos de sangue”, e ver quantos já!
De jornalistas a cidadãos ordinários na própria pátria, o MZNews vai apresentar aqui algumas vítimas dos “pingos de chuva”.
O mais mediático de todos é o “caso Cardoso”, na sequência do assassinato do jornalista moçambicano Carlos Trindade Cardoso, em Setembro de 2020, na Avenida Mártires da Machva, na cidade de Maputo, capital de Moçambique. Foram 22 tiros que fizeram pingar sangue. Houve implicados “grandes” e detidos.
Em Agosto de 2015, enquanto fazia uma caminhada matinal – cerca das 06:00 horas –, na Avenida Vladimi Lénine, na cidade de Maputo, o jornalista, Paulo Machava, foi assassinado. Foram quatro tiros. Outros “pingos de chuva” disseram que iam investigar o caso.
Em 3 de Março de 2015, o advogado constitucionalista e docente Gilles Cistac foi assassinado a tiro no exterior de um café no centro de Maputo. Eles falaram em investigações. Em Agosto do mesmo ano, em um sábado, em Marracuene, província de Maputo, foi encontrado morto, com sinais de balas e algemado, um suposto ex-membro da secreta moçambicana, Inlamo Ali Mussa. Denunciava esquemas de corrupção no sector a um jornal da praça. Ler mais…
Em momentos de tensões políticas (Governo-RENAMO), o membro da RENAMO, e do Conselho de Estado, Jeremias Pondeca, foi assassinado, em Outubro de 2016, nas mesmas circunstâncias em que foi Machava, na Marginal de Maputo. Eles disseram que investigações estavam em curso.
No distrito de Gondola, província de Manica, em Fevereiro de 2016, foi encontrado morto o Delegado da Renamo, Filipe Jonasse Machatine, com marcas de oito balas, dois dias após ser raptado.
Ainda há outros casos a recordar, envolvendo políticos – a maioria opositores, como o de Aly Jane, que, em Março de 2016, foi encontrado morto após ter desaparecido quatro dias antes. Seu corpo foi encontrado com sinais de violência, próximo do Rio Nhanombe, entre os distritos de Maxixe e Homoíne, na província de Inhambane; E Abril de 2016, José Manuel, membro da RENAMO do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, foi morto a tiro ao pé do Aeroporto Internacional da Beira após ter chegado de Maputo. Em 22 de Junho de 2016, o corpo de um alto oficial da FRELIMO na província de Manica, José Fernando Nguiraze, foi encontrado dentro de sua casa por vizinhos com ferimentos de bala. A polícia acusou membros da Renamo, que parecem nunca terem sido realmente identificados ou encontrados; em 2 de Setembro de 2016, o administrador de Tica, no distrito de Nhamatanda, província de Sofala, Jorge Abílio, foi assassinado por homens armados que a polícia identificou como combatentes da RENAMO. Em 22 de Setembro de 2016, o alto oficial da RENAMO no distrito de Moatize e membro da assembleia provincial de Tete, Armindo Nkutche, morreu após ter sofrido seis tiros na rua.
No dia em que Moçambique celebrava Dia da Paz, 04 de Outubro de 2017, foi assassinado, de noite, o então Presidente do Município de Nampula, Mahamudo Amurane, que durante a manhã dirigiu a cerimónia de deposição de uma coroa de flores na Praça dos Heróis. Dois arguidos foram condenados pelo Tribunal Judicial da província de Nampula.
Em uma manhã de Outubro de 2019, o activista e defensor dos direitos humanos, Anastácio Matavele, foi assassinado a tiros, na cidade de Xai-xai, província de Gaza. Foram identificados cinco indivíduos, dos quais quatros agentes da Polícia da República de Moçambique (um da UIE e três do GOE).
Pouco antes do fim do dia 18 de Outubro de 2024, foram crivados de balas – cerca de 25 tiros – Elvino Dias (então advogado de Venâncio Mondlane – candidato independente às presidências) e Paulo Guambe, membro do PODEMOS, o partido que suportou a candidatura e Mondlane. O crime ocorreu na Avenida Joaquim Chissano, na cidade de Maputo. Até hoje nada se sabe, oficialmente, sobre o estágio das investigações para deter os assassinos.
Vale mencionar os jornalistas “desaparecidos” nomeadamente, Ibrahimo Mbaruco, que não é visto desde Abril de 2020. A procuradoria encerrou o caso em Agosto de 2024; e Arlindo Chissale dado como desaparecido desde Janeiro de 2025. Ambos “desapareceram” em Cabo Delgado. Chissale era igualmente funcionário do Conselho Municipal de Nacala. Esta semana seus colegas recusaram alegações de desaparecimento e afirmaram que ainda aguardam seu retorno. A Família acusa as autoridades de letargia para seguir com o caso.
Durante as manifestações pós-eleitorais centenas de mortes foram relatadas pelos órgãos de comunicação social e organizações não-governamentais. A maioria terá tido como autores “os pingos de chuva”.
Com a excepção do “caso Cardoso”, “Matavele” e “Amurane” em que os supostos actores foram condenados, parece que a excelência dos pingos de chuva é fazer pingar sangue e das autoridades tem sido levar anos a investigar e jamais apresentar conclusões, encerrando, por vezes. Leia mais…
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