Moçambique tem no turismo uma indústria por afirmar e um futuro por construir

Gulamhussen defende uma abordagem estratégica, integrada e sustentável para transformar o potencial turístico do país num verdadeiro motor de desenvolvimento económico e social.

Com uma visão ancorada numa ligação histórica ao sector e na sua experiência, o mpresário e empreendedor, Dado Gulamhussen, partilhou com o MZNews uma leitura clara sobre o papel do turismo no desenvolvimento de Moçambique, enquanto precioso recurso inesgotável.

A visão que nos é apresentada emana de alguém cuja origem remonta a gerações originárias da Pérsia antiga… As peregrinações de seus ancestrais por outras latitudes do mundo cessaram em no século XIX, na Ilha de Moçambique – uma paragem obrigatória na época –, onde os seus bisavôs renderam-se às maravilhas daquela terra. Sim, não é somente pelo percurso na indústria que conversamos com Dado Gulamhussen, antes porque o turismo é parte do seu DNA.

Ao longo do tempo, a família desenvolveu diversas actividades no âmbito económico e empresarial, bem como na vida política e pública. O seu avô, nascido em 1901, em Nampula, deu continuidade a um legado herdado de gerações anteriores, transmitido pelo seu pai e que, de forma natural, se estende até aos dias de hoje. Mais tarde, no contexto das nacionalizações e no quadro histórico da construção do país, esse património foi integrado no Estado.

Já na geração seguinte, o seu pai assumiu funções de relevo na vida política e pública, tendo sido deputado da Assembleia Popular (actual Assembleia da República), bem como assessor económico dos Presidentes da República, sem deixar de lado o desenvolvimento das actividades económicas…

“Moçambique tem um potencial do qual as pessoas ainda não têm noção. O país ainda tem muito a oferecer. Temos várias reservas, áreas para actividades radicais, parques, águas termais, histórias…”

Após a assinatura dos Acordos de Paz, em 1994, abriram-se as portas para o Grupo VIP, já em operação em Portugal, desenvolver os seus negócios hoteleiros em Moçambique. As obras de construção da primeira unidade iniciaram em 1997 e, em 2002, Chissano inaugurou o VIP Grand Maputo.

“Então, começo a beber turismo a partir dessa altura da inauguração. Tinha eu os meus 17 anos…” recordou a sua participação indirecta no processo. “Entretanto, participei de todo o processo desde a concepção, a construção e gestão”.

Para continuar e preservar o historial da família, formou-se em Administração de Empresas com especialização em Turismo Internacional, na Índia. De regresso ao país, entrou, de facto, para coração das actividades do Grupo VIP, onde passou por todos os departamentos até a Administração. Desde 2014, o Grupo conta com quatro unidades hoteleiras: duas na cidade de Maputo, uma cidade da Beira e outra na cidade de Tete.

Além das margens nacionais, Dado Gulamhussen é Presidente da Comissão Especializada de Hotelaria e da Restauração da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa, o que, segundo o próprio, lhe permite uma visão holística sobre como desenvolver o turismo aprendendo de quem já navegou por estas águas.

Nisso, lança a perspectiva de que “mais do que um sector”, o turismo deve ser assumido como uma verdadeira indústria estruturante, transversal e com capacidade de gerar impacto sustentável a longo prazo. E justifica:

“O Turismo é uma cadeia muito maior do que apenas gerir hotéis. Temos as cadeias de valor que sustentam a actividade hoteleira; os guias turísticos; actividades turísticas; museus, entre outras” enumerou.

Para espevitar as cadeias de valor dessa indústria por forma a gerar ganhos para os intervenientes, tudo vai depender do modelo de posicionamento que o país adoptar conforme as suas potencialidades, defendeu.

“Moçambique tem um potencial do qual as pessoas ainda não têm noção. O país ainda tem muito a oferecer. Temos várias reservas, áreas para actividades radicais, parques, águas termais, histórias…” apontou algumas riquezas nacionais ainda adormecidas. “Nós temos mais de 2.500 quilómetros de costa e arrisco-me a dizer que 80% dela é virgem”.

O que pode ajudar na navegação, segundo Dado, é a criação de infra-estruturas como vias de acesso até às zonas hoteleiras, centros de saúde preparados para atender turistas, capacitação de recursos humanos locais e criar maior acessibilidade para o país, considerando questões de segurança.

Um ingrediente fundamental em tudo isto, notou, é a boa-vontade política que, sem a qual, o sonho da capitalização das potencialidades turísticas não se vai materializar. Num cenário onde, por exemplo, as instituições estatais constituídas para atender o turismo sem sobreposição de actividades e interferência mútua, “cria-se condições para, de facto, a indústria do turismo crescer e chagar a bom-porto”.

Uma retrospectiva dos últimos dez anos revela que hoje Moçambique está a recuperar de um estado de coma generalizado, provocado, principalmente, por crises internas que deixaram o turismo de rastos como a descoberta das Dívidas Ocultas, a covid-19, as manifestações pós-eleitorais e as cheias e inundações. As guerras na Europa e no Médio Oriente também têm impactado as importações nas cadeias de abastecimento na indústria turística, notou.

Pensar a indústria do turismo a longo prazo, entende Dado, “é fundamental que cada interveniente assuma o seu papel”. Nisto, o MZNews o instou a reflectir sobre o turismo didáctico, para, no longo prazo, se ter formado uma sociedade que pensa a indústria sustentável.

Ele foi categórico na perspectiva: “o país deve olhar para si próprio e procurar recursos internos, igualmente importante, identificar pessoas que, de facto, entendem daquilo que fazem e do que estão a fazer, e dar oportunidade as essas pessoas para desbravar o caminho para as gerações futuras deem continuidade”.

Ainda a espiar os seus primeiros anos depois dos 40 de idade, talvez pela experiência própria e herança geracional, Gulamhussen já pensa no seu legado para as próximas gerações de todas as famílias moçambicanas.

“O legado que me foi passado vem de muitas gerações, com o propósito de servir…  e é o que estou e vou continuar a fazer para deixar para os meus filhos e gerações futuras” confessou.

Dado Gulamhussen exerce algumas acções de cariz social de assistência comunitária, é membro fundador da Associação Moçambicana de Jovens Empresários Muçulmanos, “e várias outras actividades para o desenvolvimento do nosso país”.

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