Quando observamos Moçambique no contexto global actual, percebemos que não estamos diante de um simples país com recursos naturais — estamos diante de uma economia com uma plataforma mineral estratégica, posicionada para integrar a transição energética mundial e criar cadeias de valor que podem transformar o seu tecido produtivo. Para isso, é imprescindível articular realidade geológica, decisão política e estratégia industrial.
- Abundância Mineral Quantificada: Uma Riqueza Subterrânea
Os dados geológicos e as investigações mais recentes confirmam que Moçambique possui reservas significativas de minerais críticos, fundamentais para a economia do século XXI. Entre estes estão:
a) Grafite: Moçambique é um dos principais produtores globais de grafite, com reservas estimadas em cerca de 25 milhões de toneladas, representando aproximadamente 8 % das reservas mundiais — e contribuindo com cerca de 14 % da produção global do mineral;
b) A mina Balama, em Cabo Delgado, é uma das maiores operações de grafite do mundo, com reservas superiores a 1,15 biliões de toneladas de minério com cerca de 10% de teor de grafite e uma capacidade de concentração de cerca de 350 000 toneladas por ano;
c) Carvão (Coal): A província de Tete possui reservas de carvão de gigantesca dimensão — por exemplo, a mina de Zambeze tem cerca de 9 mil milhões de toneladas de carvão metalúrgico e o depósito de Benga cerca de 1,9 mil milhões de toneladas, ambos com grande relevância para a siderurgia e energia térmica; e
d) Outros minerais críticos: Moçambique possui também depósitos de tântalo, nióbio e terras raras, embora estes ainda careçam de desenvolvimento tecnológico e de uma estratégia de exploração mais robusta.
Para além destes, há potencial ainda a ser explorado em lítio e elementos associados a baterias, embora a pesquisa e avaliações geológicas estejam em fases iniciais.
2. O Mercado Global e a Transição Energética
A procura global por minerais críticos continua a crescer de forma acelerada, impulsionada pela transição energética, pela electrificação dos transportes e pela expansão da produção de baterias de iões de lítio. A grafite, por exemplo, é um componente essencial nos ânodos das baterias modernas — representando cerca de 95% do material activo dos ânodos em baterias de iões de lítio — e a sua procura global deve aumentar significativamente nos próximos anos à medida que a electrificação se intensifica.
Estima-se que Moçambique, Madagáscar e Tanzânia juntos detenham cerca de 69 milhões de toneladas de reservas de grafite, o que corresponde a uma fatia relevante das reservas globais conhecidas e coloca o continente africano como um actor chave na cadeia global de fornecimento de minerais de bateria.
Além disso, outros países africanos estão a reforçar a sua posição em minerais críticos:
- Zâmbia e a República Democrática do Congo destacam-se nos metais como cobre e cobalto, essenciais para sistemas elétricos e baterias;
- Gana e Namíbia avançam em processos de benefícios de minerais de terras raras; e
- Madagáscar e Tanzânia consolidam reservas de grafite de alto valor.
3. Cadeia de Valor: Da Mineração à Industrialização
O verdadeiro valor de um recurso mineral não está apenas na sua extracção, mas em toda a cadeia de valor que pode ser construída em torno dele. Para que Moçambique capture esse valor, é necessário articular estrategicamente cada etapa:
I. Prospecção e Exploração: Esta fase envolve pesquisa geológica avançada, amostragem e avaliação de reservas. Tecnologias modernas de sensoria remoto e modelização geológica aumentam a precisão das estimativas, reduzindo o risco para investidores e melhorando a gestão sustentável dos recursos;
II. Mineração e Beneficiação Inicial: Aqui ocorre a extracção do minério bruto e a sua transformação em concentrações intermediárias. Por exemplo, a Balama Mine já produz concentrado de grafite, que é uma matéria-prima estratégica;
III. Processamento e Refinação: Esta etapa agrega valor substancial. Em vez de exportar grafite em forma bruta, o processamento — como está agora a ser feito em Nipepe, Niassa — transforma o material em produtos aptos para aplicações industriais avançadas como baterias. Alias, nesta senda, uma capacidade instalada de processamento de 200 000 toneladas por ano, como esta sendo feito agora, coloca Moçambique na liga dos processadores globais de grafite, que coloca logo a disposição 800 vagas de emprego directos e redesenha a estrutura produtiva-industrial de Niassa;
IV. Derivados de Alta Tecnologia: No caso da grafite, o processamento avançado resulta em grafite esferoidal para baterias, material de carbono para tecnologias industriais, e componentes para iões de lítio — produtos com valor unitário muito superior ao minério bruto e que geram maior rendimento, emprego qualificado e exportações dignas de balança comercial positiva, sem contar com receitas fiscais sustentáveis.
V. Indústrias de Aplicação Final: A integração vertical pode conduzir à instalação de indústrias de baterias, equipamentos eléctricos e armazenamento de energia directamente ligadas aos recursos locais, reduzindo a dependência de importações e criando clusters industriais e tecnológicos.
4. Oportunidades de Localização Industrial em Moçambique
Moçambique dispõe de várias vantagens geográficas e logísticas para instalar indústrias de valor agregado:
- Portos estratégicos (Nacala, Beira, Maputo) que facilitam o escoamento para mercados na Ásia, Europa e Américas;
- AfCFTA (Zona de Livre Comércio Continental Africana) que pode dinamizar cadeias regionais de valor e reforçar exportações intra-africanas;
- Acordos comerciais com blocos económicos que abrem mercados preferenciais para minerais processados; e
- Maior proximidade logística para mercados emergentes de automóveis eléctricos e tecnologias renováveis.
5. Lacunas e Barreiras a Ultrapassar
Apesar deste panorama promissor, Moçambique enfrenta desafios que limitam a plena exploração dos seus recursos:
- Falta de uma estratégia nacional consolidada para minerais críticos, que coordene pesquisa, exploração, processamento e industrialização. As actuais leis mineiras foram concebidas num contexto dominado pelos hidrocarbonetos e não respondem totalmente às exigências da transição energética;
- Infra-estrutura energética e de transporte insuficiente para suportar grandes operações de processamento intensivo em energia;
- Capacitação técnica limitada e necessidade de programas de formação avançada;
- Financiamento de longo prazo para industrialização e refinação local ainda não suficientemente estruturado.
6. Conclusão: A Riqueza Mineral como Motor de Desenvolvimento
Os dados são claros: Moçambique possui recursos minerais de escala global — especialmente grafite com reservas estimadas em dezenas de milhões de toneladas que alimentam a economia das baterias e da energia limpa.
Mas a verdadeira oportunidade não está apenas em extrair, e sim em processar, refinar e industrializar, transformando matéria-prima em produtos com alto valor agregado, empregando capacidades nacionais e posicionando o país na cadeia global de valor dos minerais críticos.
A nova fábrica de grafite em Niassa, não resolve os problemas estruturais da falta de transformação interna dos nossos recursos, mas é um marco simbólico da almejada inflexão de paradigma de exploração de recursos em Moçambique. Agora o desafio é expandir essa lógica para outros minerais (como lítio, tântalo, rubis, ouro, cobalto, carvão térmico e metalúrgico, terras raras e titânio), criando clusters industriais competitivos, com regimes fiscais e regulamentos claros, energia confiável e parcerias público-privadas estratégicas.
Com uma política mineira orientada para a captação de valor, emprego qualificado, industrialização e diversificação industrial e sustentabilidade ambiental, Moçambique pode combinar o amarelo da nossa bandeira (riqueza subterrânea) com prosperidade acima da superfície, construindo uma economia robusta, resiliente e integrada à transição energética mundial.
Texto: Clésio Foia – Economista