GNLː Quando a luz começa a brilhar em meio a desafios
A retoma, em definitivo, do projecto Mozambique LNG de exploração de gás natural liquefeito (GNL), na Península de Afungi, província de Cabo Delgado, foi uma almofada de ar fresco para o sector empresarial moçambicano.
O facto veio a confirmar-se com a multinacional francesa TotalEnergie a anunciar cerca de 4,5 biliões de dólares para o conteúdo local, o que representa aproximadamente 17% do CAPEX do projecto Mozambique LNG, criando oportunidades reais ao empresariado nacional.
“As empresas nacionais estão a posicionar-se através do registo nas plataformas de procurement, da melhoria dos seus padrões operacionais e do estabelecimento de parcerias com empresas internacionais, com o objectivo de ganhar escala, experiência e competitividade”, afirmou Katya Coelho, Gestora do Bureau de Conteúdo Local pela Confederação das Associações Económicas, (CTA).
Em entrevista exclusiva ao MZNews, Katya Coelho, revelou que na prática, já foram atribuídos vários milhões de dólares em contratos a empresas moçambicanas no âmbito do Mozambique LNG, onde a construção, logística e catering estão na dianteira.

A responsável destacou ainda o arranque de Programas como o CapacitaMoz, promovido pela TotalEnergies, que apoio mais de 100 empresas e permitiu certificação ISO, “o que demonstra um esforço concreto de preparação para captar estas oportunidades”.
Cabo Delgado em primeiro lugar
Ao nível territorial, a expectativa é de um impacto relevante na economia de Cabo Delgado, sobretudo no emprego. A província conta actualmente com cerca de 26 mil empregos formais, e o sector do gás poderá acrescentar aproximadamente 10 mil novos postos de trabalho depois da fase de construção.
“Isto permitirá gerar impacto de longo prazo, sendo importante que as IOCs apoiem este modelo de desenvolvimento”, refere Coelho, adiantando que a Fundação Mozambique LNG, promovida pela TotalEnergies, e em parceria com a MozYouth Foundation, já apoiou centenas de estágios em Cabo Delgado, reforçando a integração progressiva da juventude no mercado de trabalho.
Mas nem todo está perfeito. Há também um outro esforço que precisa ser empreendido para que as empresas nacionais tirem de facto, vantagens, das oportunidades de negócios que advém destes grandes projectos.
O sector privado precisa ser mais consistente, mais regular e sobretudo garantir qualidade nos bens e serviços fornecidos, cumprindo com padrões internacionais em áreas como engenharia e procurement especializado, onde a capacidade local ainda está em desenvolvimento.

“Existem condições relevantes, mas ainda parciais”, admite a Gestora do Bureau de Conteúdo Local pela CTA, apontado como obstáculo, a ausência de uma estrutura financeira, para a grande maioria das empresas, sobretudo as pequenas e médias empresas.
“A execução de contratos no sector de Oil & Gas exige pré-financiamento, garantias bancárias e estabilidade de fluxo de caixa, requisitos que nem todas as empresas nacionais conseguem assegurar”, refere.
A solução, segundo referiu, passa pela existência de mecanismos de garantia apoiados pelo Governo, Banco Mundial e KfW, que podem cobrir até 50% do risco de crédito.
“Soluções como factoring e redução dos prazos de pagamento (idealmente para cerca de 30 dias) são igualmente relevantes para melhorar a liquidez. Haverá melhorias interessantes ao longo deste ano e do próximo”, afirma a responsável.
Quem também está entusiasmada com esta retoma do projecto é o sector bancário, com o Nedbank Moçambique a mostrar total disponibilidade para financiar o sector privado através de apoio e criação de um tecido empresarial moçambicano que seja sustentável para muito mais do que apenas esses projectos exigem.
“Queremos ter um papel activo em tudo que estiver a ver com este projecto, quer através dos principais players e, naturalmente, com todo o ecossistema que vai servir este projecto, disse CEO do Nedbank Moçambique, Joel Rodrigues.
Ao nível da capacitação, programas como o CapacitaMoz e iniciativas apoiadas pelo Banco Mundial e Banco Africano de Desenvolvimento têm reforçado competências, incluindo programas de estágios como o PLED financiado pelo Banco Mundial e o RISE financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), que prevê 2.000 estágios para jovens na região Norte de Moçambique.
Apesar destes avanços, refere a fonte, persistem desafios em perfis altamente especializados, o que reforça a necessidade de continuar a investir em formação técnica e certificação alinhada com os padrões internacionais da indústria.
