A família do empresário luso-moçambicano Francisco Cêra, raptado em Maputo, voltou a insistir na necessidade de uma investigação conjunta entre Moçambique e Portugal, na sequência de uma entrevista concedida ontem, 27 de Janeiro, pela prima da vítima, Dulce Malaia à RTP, onde apelou à cooperação internacional para o esclarecimento do caso.
Na entrevista, a familiar defendeu que a presença da Polícia Judiciária portuguesa em Moçambique, actualmente envolvida na investigação do assassinato do administrador do BCI, Pedro dos Reis, poderia igualmente contribuir para o esclarecimento do desaparecimento de Francisco Cêra, considerando o prolongado silêncio em torno do processo.
O empresário foi raptado na manhã de 7 de Outubro de 2025, na Avenida Zedequias Manganhela, no centro da cidade de Maputo, quando se preparava para entrar nas instalações da NBC, empresa de venda de acessórios e veículos da qual é um dos proprietários. Desde então, o seu paradeiro permanece desconhecido.
Na altura do crime, o porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM), Leonel Muchina, afirmou, em declarações públicas a 23 de Outubro de 2025, que existiam avanços na investigação conduzida em coordenação com o Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC). “Lamentamos que aquele caso tenha ocorrido daquela forma, mas há todo um trabalho em curso para o seu esclarecimento. Este é um grande desafio para a administração da justiça, mas há muitos avanços”, declarou.
Leonel Muchina explicou ainda, em entrevista à Rádio Moçambique, que o crime de rapto possui uma tipologia organizacional transnacional, o que dificulta a prevenção e a vigilância policial. Ainda assim, garantiu que, após a ocorrência dos factos, são desencadeadas diligências profundas para o seu esclarecimento, sob responsabilidade do SERNIC.
No mesmo dia, porém, as autoridades reconheceram limitações na investigação. O Ministro do Interior, Paulo Chachine, afirmou que Moçambique não dispunha ainda de pistas concretas que conduzissem ao esclarecimento do rapto, sublinhando que a investigação estava em curso e que não era oportuno, naquele momento, falar sobre detenções ou suspeitos.
“O mais importante é o trabalho intenso e profundo que está a ser realizado pela PRM e pelo SERNIC. Em momento próprio, quando o caso estiver esclarecido, serão divulgados todos os detalhes”, afirmou o governante, à margem da tomada de posse de novos comandantes provinciais da PRM.
Após o rapto, a Embaixada de Portugal em Moçambique manifestou disponibilidade para colaborar com as autoridades moçambicanas. O embaixador português, Jorge Monteiro, declarou abertura total para apoiar a família e os órgãos de investigação criminal, expressando esperança numa resolução do caso.
O desaparecimento de Francisco Cêra ocorre num contexto de crescente preocupação com os raptos em Moçambique. Dados oficiais indicam que cerca de 150 empresários foram raptados nos últimos 12 anos, levando aproximadamente uma centena a abandonar o país por receios relacionados com a sua segurança.