Um grupo de 240 jovens mulheres, a maioria deslocadas pelos ataques insurgentes, iniciou nesta segunda-feira (02.03), em Pemba, uma capacitação de cinco dias em educação financeira e empreendedorismo, com o objetivo de reforçar a sua independência económica e reduzir a vulnerabilidade ao extremismo na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.
Segundo a informação avançada pela rádio Zumbo, a formação reúne participantes com idades entre 15 e 35 anos, incluindo deslocadas dos distritos de Muidumbe, Mocímboa da Praia, Macomia e Quissanga, áreas afetadas pela violência armada. Segundo os organizadores, o programa visa fortalecer a autonomia financeira feminina e prevenir a vulnerabilidade ao extremismo violento.
“Eu acredito e tenho muita certeza que vai me tornar independente”, afirmou Egnalda Daniel, deslocada de Muidumbe que vive em Pemba desde 2018. Vendedora de produtos de primeira necessidade, ela disse esperar que a formação a ajude a expandir o seu negócio. “Quando você não depende de outras pessoas, você espera algo positivo”, acrescentou, em exclusivo à Rádio Zumbo.
Outra participante, Isabel Gilberto, 20 anos, deslocada de Mocímboa da Praia, considerou a capacitação “muito educativa e produtiva”. “Aprendi como fazer um plano de negócio e como economizar. Sei que vai ser possível guardar dinheiro”, afirmou, revelando que o seu maior sonho é trabalhar na área da medicina e ajudar a comunidade.
Desde 2017, a província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada que já provocou milhares de mortos e forçou centenas de milhares de pessoas a abandonar as suas casas, segundo organizações humanitárias.
Ngamo Muhenera, deslocada de Quissanga, relatou ter passado semanas escondida no mato com a família após um ataque em 2020. “Estou muito feliz por participar nesta formação porque estão a ensinar coisas que eu não sabia. Agora já posso sentar, fazer um plano e depois ir ao mercado ver o que as pessoas precisam”, disse.
A iniciativa é promovida pela Associação Kuendeleya, em coordenação com a Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte (ADIN), no âmbito de um programa de prevenção ao extremismo violento apoiado pelo Fundo Global da Resiliência Comunitária e liderado pela ActionAid.
“Estas jovens recebem capacitação básica em literacia financeira para que possam criar grupos de poupança e desenvolver os seus próprios negócios”, explicou Cláudio Sacita, técnico da ADIN. Segundo ele, o reforço da autonomia económica feminina é também uma estratégia de prevenção. “Queremos paz e coesão social. Desencorajamos a juventude a aderir às fileiras do terrorismo”, afirmou.
O presidente da Associação Kuendeleya, Abudo Gafuro, disse que o projeto abrange quatro bairros de Pemba considerados altamente vulneráveis. “O objetivo é tirar estas jovens da dependência para a independência, ensinando políticas de poupança regular e acesso ao crédito para gerar renda própria”, declarou.
De acordo com Gafuro citado pela rádio Zumbo, após a formação haverá acompanhamento técnico e distribuição de kits para pequenos negócios aos grupos criados. Entre os dias 20 e 22 de março está prevista uma feira para apresentação dos projetos desenvolvidos pelas participantes.
Para Fátima Omar, jovem residente em Pemba, a capacitação representa mais do que uma oportunidade económica. “É muito importante para as mulheres poderem fazer negócios para não serem dependentes dos homens”, disse. “Tendo um negócio, você não vai depender 100% de outra pessoa.”
Os organizadores esperam que a iniciativa contribua para reduzir os níveis de vulnerabilidade social entre jovens mulheres deslocadas e residentes na capital provincial, num contexto em que o conflito e os choques climáticos agravaram a insegurança económica no norte de Moçambique.