As regiões semi-áridas da província de Gaza, no Sul de Moçambique, registam, na presente época chuvosa, níveis de precipitação sem precedentes, invertendo um ciclo prolongado de seca severa que se arrasta há quase uma década.
Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) indicam que distritos do norte da província, historicamente afectados pelo fenómeno El Niño e marcados por escassez de água, receberam em apenas uma semana o equivalente à chuva de toda uma época chuvosa.
Segundo o climatologista Isaías Raiva, os distritos de Massangena, Mabalane, Chicualacuala, Massingir e Mapai registaram entre 400 e 500 milímetros de chuva em apenas sete dias — volumes que correspondem à média acumulada de toda a estação chuvosa nestas zonas. “Estamos a falar de precipitações muito avultadas, extremas, nunca antes registadas a este nível nas zonas semi-áridas de Gaza”, afirmou Isaías Raiva, citado pela AIM.
Entretanto, o cenário contrasta com a realidade desde 2016, período marcado por uma queda acentuada da precipitação no norte da província. Dados do INAM, com base em análises de séries históricas, apontam para uma tendência de redução progressiva das chuvas, agravada por episódios recorrentes de El Niño, responsáveis por secas prolongadas.
A escassez de água teve impactos profundos nas comunidades locais, tradicionalmente vulneráveis à insegurança alimentar e à desnutrição crónica. Dependentes de uma economia essencialmente agrícola e da criação de gado, muitas famílias viram a sua subsistência comprometida pela falta de chuva.
Nos últimos anos, a precipitação acumulada ficou muito abaixo da média, com longos períodos sem qualquer registo de chuva durante a época chuvosa. O resultado foi a perda de culturas, morte de animais e agravamento da vulnerabilidade social.
Agora, a chuva excepcional pode representar um alívio. A recuperação dos solos, o reabastecimento das reservas de água e a regeneração das pastagens poderão impulsionar a produção agrícola e a criação de gado, base da economia local.
Ainda assim, o fenómeno levanta preocupações. A intensidade da precipitação já provoca cheias, erosão de solos e danos em infra-estruturas, sobretudo em zonas pouco preparadas para eventos extremos.
Perante este novo padrão climático, Isaías Raiva defende a necessidade de acções de mitigação e adaptação. “Temos que preparar as comunidades para conviver com estas mudanças, porque o clima não vai voltar à normalidade de forma imediata”, alertou a fonte, reforçando a importância da monitorização e divulgação de informação climática para reduzir riscos.
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