O MZNews teve acesso a documentos que comprovam a existência de ordens militares ignoradas. Mais de 350 desmobilizados foram convocados para defender a pátria no Teatro Operacional Norte, mas acabaram dispensados sem salários, sem direitos e com o rasto de sangue de colegas que tombaram sem assistência.
A promessa era de honra e de regresso ao serviço activo para defender a integridade territorial de Moçambique. Em 2024, as Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) lançaram um apelo aos militares desmobilizados: homens aptos, embora desempregados, que deveriam trocar a paz das suas casas pelo perigo das matas de Cabo Delgado. Centenas responderam. Hoje, o que resta é um rasto de miséria, desespero e uma denúncia grave que chega à redação do MZNews.
Sob a orientação de um Coronel, estes homens foram destacados para a zona de Macomia, mais especificamente para a posição de Catupa. Durante mais de um ano, operaram em condições de “vulnerabilidade extrema”, sem equipamento adequado e, mais grave ainda, sem receberem um único metical de remuneração.
“Todos os meses faziam o cadastro. Diziam que era para regularizar o salário, mas o dinheiro nunca caía”, relata um dos afetados. O que era para ser uma missão de soberania tornou-se num regime de servidão voluntária sob fogo cruzado.
O MZNews teve acesso a um documento crucial: a Circular n.º 001/EMG/EX/CB110/2025, emitida a 14 de fevereiro de 2025 pelo Comando da Brigada 110 em Mueda. O documento, assinado pelo Coronel Ângelo Moisés João da Costa, é claro: as subunidades deveriam dispensar os militares cuja reintegração ainda não tivesse sido autorizada pelo Comando Superior, para que estes se apresentassem em Maputo para a “legalização da sua reintegração”.
Contudo, a denúncia indica que o comando direto no terreno ignorou a ordem. Os militares foram mantidos em combate sob o pretexto de que o “sistema STAF” resolveria a situação. Não resolveu.
A negligência atingiu o seu auge a 27 de maio de 2025. Um ataque violento na posição onde estavam estacionados resultou na morte de vários militares deste grupo. Homens que morreram a servir um Estado que, tecnicamente, nem sequer os tinha na folha de pagamentos.
“As famílias não receberam assistência. Souberam da morte dos seus entes queridos por nós, os colegas, e não pelo Comando. Fomos tratados com uma indiferença aterradora, como se aquelas vidas não tivessem valor”, lê-se no relato enviado ao nosso portal.
Após o ataque, o grupo foi movido para Macarara. Novas promessas, novos cadastros e, novamente, o silêncio bancário. A conclusão desta odisseia aconteceu de forma humilhante: uma comitiva do Comando do Exército ordenou o regresso de todos a casa.
Para espanto dos militares, foram entregues formulários de “pedido de integração” – um contrassenso jurídico para quem já estava há mais de um ano em serviço ativo no teatro de guerra. Sem dinheiro para as passagens de regresso e sem qualquer documento que salvaguardasse os seus direitos, os homens foram abandonados à sua sorte.
Atualmente, estes mais de 350 homens encontram-se no desemprego e na indigência. O Estado que os convocou no momento da necessidade parece agora sofrer de amnésia institucional.
O MZNews continuará a acompanhar este caso, aguardando um esclarecimento oficial do Ministério da Defesa Nacional sobre o destino destes militares e sobre o incumprimento das diretrizes da Brigada 110.