“Igrejas superam o Estado”: Elísio Macamo analisa a ascensão da religião como resposta às falhas institucionais em Moçambique

O sociólogo Elísio Macamo defende que a vitalidade das igrejas em Moçambique não é apenas um fenómeno de fé, mas um reflexo da incapacidade do Estado em responder às necessidades básicas e de identidade da população.

Numa análise profunda sobre o papel das confissões religiosas no tecido social moçambicano, entrevistado pela MBC, o sociólogo lançou um olhar crítico sobre a eficácia organizacional das igrejas face à ineficiência das instituições públicas. Para o académico, a religião transformou-se numa alternativa organizada onde o Estado falha, oferecendo aos cidadãos algo que as estruturas formais não conseguem garantir: reconhecimento, uma linguagem para interpretar a própria vida e perspectivas de futuro.

É intrigante e inquietante a vitalidade da religião em Moçambique, afirmou Macamo, sublinhando que a capacidade de mobilização, a criação de compromissos e a gestão de recursos que muitas igrejas demonstram superam, frequentemente, a performance da máquina administrativa pública.

Segundo o sociólogo, a adesão massiva às congregações não deve ser lida apenas pelo prisma da espiritualidade. Existe um vazio deixado pela política que a religião preenche, funcionando como uma rede de suporte que oferece dignidade e sentido a uma população marcada pela precariedade.

O cenário ganha contornos mais complexos quando se analisa a postura da classe política. Elísio Macamo critica abertamente a tendência de muitos governantes em substituir a responsabilidade governativa pela exibição pública de religiosidade.

O fenómeno do político religioso mostra que a encenação da fé, com orações públicas e a invocação constante do divino, tornou-se uma ferramenta de legitimação política. O académico recorda que, num Estado constitucionalmente laico, a política deveria concentrar-se na resolução dos problemas concretos dos cidadãos, em vez de recorrer à religião para ocultar a falta de resultados na gestão pública.

A análise de Macamo coloca o dedo numa ferida aberta do debate público moçambicano: a necessidade de reforçar as instituições democráticas. Ao delegar funções de apoio social e de organização comunitária às igrejas, o Estado corre o risco de perder a sua centralidade e relevância perante o cidadão.

Para o sociólogo, a política moçambicana precisa de reassumir o seu papel de garante de bem-estar, sob pena de ver a sua autoridade cada vez mais diluída num cenário onde a fé, organizada e eficaz, dita o ritmo da vida social.

Imagem: DR

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