O cenário económico moçambicano atravessa um momento de profunda reflexão após o diagnóstico apresentado pelo Banco Mundial. Em relatório recentemente divulgado, a instituição financeira descreveu o período entre 2016 e 2025 — que coincide com os dois mandatos da governação de Filipe Nyusi — como uma “década perdida” para o desenvolvimento do país.
A análise estabelece um contraste marcado com o ciclo de forte expansão verificado entre 2003 e 2015, período em que Moçambique registou um crescimento médio de 7,2% ao ano e uma redução gradual da pobreza.
Contudo, a partir de 2016, o país entrou numa espiral descendente. Os dados indicam que o crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) na última década fixou-se em apenas 2,6%, valor que se posiciona abaixo da taxa de crescimento populacional, estimada em 2,8%. Na prática, esta divergência resultou numa redução do rendimento per capita das famílias moçambicanas.
Segundo o Banco Mundial, o retrocesso observado não decorre de um factor isolado, mas de uma conjugação de elementos que atingiram a governação de Filipe Nyusi. A instituição identifica uma “sequência de choques” que sobrecarregaram fragilidades estruturais preexistentes.
Entre os pontos de maior impacto, destaca-se a eclosão da crise das dívidas ocultas logo no início de 2016. Este episódio é apontado como o principal ponto de inflexão, pois expôs debilidades severas na gestão económica e provocou uma quebra abrupta de confiança junto a parceiros internacionais e investidores, levando à suspensão do apoio externo. A este cenário somaram-se desastres naturais de grande escala, como os ciclones Idai e Kenneth em 2019, os impactos económicos da pandemia de COVID-19 em 2020 e a insurgência armada na zona norte do país, que agravaram a vulnerabilidade do Estado.
Conforme publicado pelo jornal Dossier Económico, a instituição financeira alerta que a estrutura produtiva do país atingiu os seus limites. Com a agricultura, que emprega cerca de 70% da força de trabalho, a permanecer caracterizada por baixos níveis de produtividade e elevada exposição a choques climáticos, a capacidade de o crescimento económico traduzir-se em redução da pobreza tornou-se extremamente limitada.
Perante este quadro, o país enfrenta o desafio de reverter um cenário onde, apesar da exploração de recursos naturais, a pobreza continua a acentuar-se. As projecções do Banco Mundial indicam que o número de moçambicanos abaixo da linha da pobreza poderá continuar a crescer até 2028, caso não ocorram mudanças estruturais significativas na política económica e na governação do país.
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