Graça Machel critica fraca responsabilização dos promotores de assédio sexual no meio laboral

A activista social Graça Machel defendeu uma abordagem mais firme, criticando a fraca responsabilização dos promotores de assédio sexual no trabalho.

De acordo com a presidente da FDC, que falava ontem (17), na primeira Conferência Nacional sobre o Assédio no Local de Trabalho, a questão do assédio sexual no trabalho trata-se, acima de tudo, de abuso de poder. “Muitos homens julgam que têm o direito de usar as posições em que se encontram para oprimir e humilhar as mulheres”, afirmou Graça Machel.

A prática, segundo a activista, tende a persistir porque é frequentemente tolerada pela sociedade e raramente resulta em punições exemplares. “Quantas vezes vemos uma punição severa contra um assediador? Se o fenómeno é generalizado, devíamos ter muitos casos que demonstrassem que a sociedade não tolera estas práticas”, questionou.

A activista defendeu ainda uma mudança profunda de mentalidades e maior envolvimento das instituições públicas e da sociedade. “Não estamos apenas a tratar de leis. Estamos a tratar do ser humano e da maneira como algumas pessoas se julgam acima de outras”, afirmou, defendendo a necessidade de massificar a luta contra o assédio e transformar a forma como a sociedade encara a dignidade das mulheres.

Para Graça Machel, o assédio resulta de relações de poder desiguais entre homens e mulheres. “O assédio assenta na ideia de que o homem é superior à mulher e que, por isso, julga ter o direito de usar a posição para abusar delas”, declarou.

Segundo ela, “o assédio não surge por acaso”, mas sim de um sistema que historicamente colocou o homem numa posição dominante e relegou a mulher para um plano secundário na sociedade.

Graça Machel destacou ainda que muitos homens, influenciados por normas sociais e pela educação, acreditam poder impor os seus desejos, incluindo a exigência de favores sexuais, sobretudo quando ocupam posições de poder. Criticou também a normalização do fenómeno e a falta de responsabilização, sublinhando que “os assediadores são intolerantes quando o assédio atinge a sua filha ou irmã, mas normalizam quando se trata das irmãs e esposas dos outros”.

Para enfrentar o problema, defendeu uma transformação profunda das mentalidades, das práticas e das relações de poder, para além do reforço dos mecanismos de justiça.

 

(Foto DR)

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