Cabo Delgado: Cólera volta a matar após anúncio de fim do surto

A aparente tranquilidade que se seguiu ao anúncio do fim do surto de cólera em Cabo Delgado foi interrompida por relatos alarmantes vindos de dentro das unidades sanitárias. Embora as autoridades de saúde tenham declarado, no dia 06 de abril, que a epidemia estava encerrada nos distritos de Metuge, Mecúfi, Montepuez e Pemba, a realidade no terreno aponta para um cenário de novos contágios e vítimas mortais.

Uma investigação da Rádio Zumbo FM revela que, no último sábado, 11 de abril, o Hospital Provincial de Pemba registou uma nova vaga de doentes com diarreias agudas. Segundo uma fonte médica que falou sob anonimato àquela estação radiofónica, apenas no período da manhã de sábado, deram entrada mais de cinco novos casos, afetando sobretudo crianças dos 0 aos 14 anos.

O caso mais grave envolve a localidade de Morrebue, no distrito de Mecúfi. De acordo com a fonte citada pela Rádio Zumbo FM, duas crianças perderam a vida na semana passada enquanto eram transferidas para o Hospital Provincial de Pemba. Uma das menores faleceu durante o percurso e a outra já na unidade sanitária, indicando que a doença continua ativa e letal na província.

A mesma fonte denunciou a existência de um receio generalizado entre os responsáveis de saúde em reportar os dados reais. Segundo o relato, existe uma pressão para manter os relatórios favoráveis, evitando que os gestores sejam questionados após terem declarado o controlo da doença. “Se fossem ao terreno, veriam que os relatórios não correspondem à realidade”, afirmou o profissional de saúde à rádio.

Para além do ressurgimento de casos, os profissionais denunciam a falta de condições básicas para o atendimento. Relatos indicam a escassez de soro, luvas e outros medicamentos essenciais, o que tem obrigado as famílias dos pacientes a recorrerem a farmácias privadas para adquirir o tratamento necessário.

Em resposta a estas informações, o gestor de incidentes para a cólera em Cabo Delgado, Sangue Agostinho, negou a existência de óbitos recentes ou de casos graves. O responsável afirmou que as equipas estão no terreno a realizar trabalhos de vacinação e que, apesar da entrada de alguns pacientes com sintomas diarreicos provenientes do bairro Alto Gingone, as amostras colhidas até agora não deram resultados positivos para a cólera.

Os dados apurados pela Rádio Zumbo FM sugerem que o número total de mortes pode ser superior ao que é admitido oficialmente. Se as duas mortes recentes de menores forem confirmadas, o total de óbitos na província poderá subir para dez, agravando o balanço de um surto que, desde novembro, já infectou mais de mil pessoas em Cabo Delgado.

Até ao momento, os distritos mais fustigados foram Montepuez, Mecúfi e Metuge. A maioria das infeções registadas pelas autoridades de saúde ocorreu em adultos acima dos 15 anos, mas o novo alerta coloca o foco na vulnerabilidade das crianças perante a falta de saneamento e de medicamentos nas unidades sanitárias.

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