Pó Jorge quebra o silêncio e aponta o dedo a Mateus Magala e IGEPE

O antigo Diretor-Geral da companhia, atualmente detido, recusa o papel de “bode expiatório” e revela que as decisões críticas vinham diretamente de instâncias superiores e da consultora sul-africana.

O cenário na gestão das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) ganha novos e dramáticos contornos. De acordo com uma investigação detalhada do jornal Canal de Moçambique, Pó Jorge, ex-diretor-geral da transportadora de bandeira, decidiu contra-atacar a partir da cadeia. Em causa estão graves acusações dirigidas ao antigo Ministro dos Transportes e Comunicações, Mateus Magala, e à Presidente do IGEPE, Ana Coanai.

Conforme os documentos revelados pelo Canal de Moçambique, a defesa de Pó Jorge sustenta que a Direção-Geral foi sistematicamente esvaziada das suas competências durante o contrato com a Fly Modern Ark (FMA). O ex-gestor alega que a consultora respondia diretamente ao Ministério e ao IGEPE, criando uma estrutura de comando paralelo que ignorava a hierarquia interna da empresa.

Sobre os pagamentos polémicos de 81,4 milhões de meticais à FMA, a contestação refere que as autorizações partiam das instâncias tutelares. Pó Jorge afirma que a gestão operacional da LAM não tinha sequer acesso aos termos contratuais que definiam tais pagamentos, sendo estes validados por funcionários do Ministério das Finanças e pela própria liderança da FMA.

Um dos pontos mais sensíveis da investigação diz respeito à descoberta de terminais de pagamento (POS) que operavam à margem do sistema financeiro da LAM. Segundo o Canal de Moçambique, Pó Jorge esclarece que a gestão desses equipamentos foi conduzida integralmente pela equipa da Fly Modern Ark, sem qualquer intervenção da Direção-Geral ou do setor de Tesouraria da companhia.

Quanto à rota Maputo-Lisboa, o ex-diretor revela que a operação resultou num prejuízo de 22 milhões de dólares devido aos elevados custos operacionais. A defesa sublinha que a equipa de Estudos e Planeamento da LAM questionou a viabilidade da rota, mas a decisão de avançar foi uma imposição estratégica da consultora, apresentada como uma fonte de rendimento que nunca se concretizou.

Além de Pó Jorge, o processo envolve outros nomes de peso da antiga estrutura da LAM, como Hilário Tembe, Eugénio Mulungo e Armindo Savanguane. Estes antigos gestores enfrentam acusações que variam entre peculato, abuso de cargo e esquemas de faturação duplicada em serviços de “catering”.

A defesa citada pelo Canal de Moçambique é categórica ao afirmar que a responsabilidade pela degradação financeira da empresa, verificada entre 2023 e 2024, deve ser imputada às entidades que supervisionavam diretamente o contrato de reestruturação. O caso segue agora os trâmites legais, enquanto a opinião pública aguarda o desfecho de um dos maiores escândalos de gestão no setor público moçambicano.

Imagem: DR

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