Moçambique é o segundo país mais pobre do mundo, aponta relatório do Banco Mundial

Quase 20 milhões de moçambicanos vivem abaixo da linha da pobreza nacional. Década perdida em termos de bem-estar desfez ganhos de anos de crescimento económico

Moçambique é o segundo país mais pobre do mundo. A conclusão consta do mais recente relatório do Banco Mundial sobre a economia moçambicana, publicado em março de 2026, que pinta um retrato sombrio de um país onde a pobreza e a desigualdade atingiram níveis alarmantes, revertendo décadas de progresso.

Segundo o documento, 81% da população vive com menos de três dólares por dia — medidos em paridade de poder de compra —, o que coloca Moçambique na segunda posição entre os países mais pobres do planeta. O coeficiente de Gini, que mede a desigualdade, situa-se em 50, colocando o país entre os dez mais desiguais do mundo.

Uma década perdida

Os números actuais representam um retrocesso dramático face aos progressos alcançados nos anos anteriores. Entre 2003 e 2015, a taxa de pobreza tinha recuado de forma significativa, passando de 60% para 48%, num período em que a economia crescia a uma média anual de 7,2%. Essa tendência positiva inverteu-se de forma abrupta a partir de 2015.

Em 2022, a taxa de pobreza voltou a subir para 63%, com cerca de 20 milhões de moçambicanos a viver abaixo da linha da pobreza nacional, fixada em 43,7 meticais por dia. Em 2015, esse número era de 12,3 milhões de pessoas. Ou seja, em apenas sete anos, o número de pobres aumentou em quase oito milhões de pessoas.

O Banco Mundial descreve o período entre 2016 e 2025 como uma “década perdida” em termos de ganhos de bem-estar. O rendimento nacional bruto per capita caiu 8% entre 2015 e 2024, e as projecções indicam que continuará abaixo dos níveis de 2015 até pelo menos 2028.

Uma cascata de choques

A reversão dos ganhos alcançados não foi obra do acaso. O relatório identifica uma série de choques que, em conjunto, destruíram o progresso de anos. A crise da dívida oculta de 2016, os ciclones Idai e Kenneth em 2019, a pandemia de Covid-19 em 2020, a insurgência armada no norte do país e os crescentes desequilíbrios macroeconómicos formaram uma tempestade perfeita que empurrou milhões de moçambicanos de volta à pobreza.

A estes choques externos somaram-se fragilidades estruturais persistentes. O crescimento económico médio entre 2016 e 2025 foi de apenas 2,6%, abaixo da taxa de crescimento populacional de 2,8%, o que significa que o rendimento per capita diminuiu ao longo de toda esta década.

O emprego que não chega

A pobreza é agravada pela incapacidade da economia em gerar emprego suficiente para absorver os jovens que chegam ao mercado de trabalho. Todos os anos, 500 mil moçambicanos entram no mercado laboral, mas apenas 30 mil empregos formais são criados. A maioria da população activa está empregada na agricultura, que representa mais de 70% da força de trabalho, mas que sofre de baixa produtividade, subinvestimento crónico e elevada vulnerabilidade climática.

A situação é particularmente grave para as mulheres, que enfrentam taxas mais elevadas de desemprego e subemprego.

As regiões mais pobres

A pobreza não se distribui de forma uniforme pelo território. As províncias com maiores populações rurais — Cabo Delgado, Niassa, Nampula e Zambézia — registam os níveis de pobreza mais elevados do país. Em 2022, cerca de sete em cada dez pessoas pobres viviam em zonas rurais, onde o acesso a serviços básicos como saúde, educação, água potável e electricidade permanece muito limitado.

Em contraste, a Cidade de Maputo e a Província de Maputo apresentam os índices de pobreza mais baixos, reflexo da concentração da actividade económica no sul do país. Maputo City sozinha, com apenas uma fracção da população nacional, gera uma parte desproporcionalmente elevada da riqueza do país.

Perspectivas que não animam

As projecções do Banco Mundial para os próximos anos oferecem pouco conforto. O crescimento económico deverá situar-se entre 1% e 2% entre 2026 e 2028, insuficiente para reduzir a pobreza de forma significativa. Como o crescimento previsto continua abaixo da taxa de crescimento populacional, o número absoluto de pobres deverá continuar a aumentar, com mais 1,8 milhões de pessoas a cair abaixo da linha de pobreza de três dólares por dia até 2028.

O relatório alerta que, sem reformas fiscais ambiciosas e credíveis, sem investimento na produtividade agrícola e sem uma melhoria do ambiente de negócios, Moçambique corre o risco de ver a sua situação social deteriorar-se ainda mais, comprometendo a coesão social e o contrato entre o Estado e os cidadãos.

Imagem: DR

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